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Depois do discurso em sua posse no Instituto
Histórico da Bahia, sem o uso da letra a, o filólogo
baiano Antonio Sá volta à tribuna três anos mais tarde, desta
vez para fazer um discurso sem usar um verbo sequer.
Eis o discurso de 1918 na íntegra, em sua forma ortográfica
original:
"VARIEDADE
LITERÁRIA
Orgulhosa
de
si
mesma,
rica
em
vocabulos,
mais
do
que
rica,
poderosa,
a lingua portugueza!
Porque
?
Vasta,
immensuravel,
capaz
de
qualquer
manejo;
ora
prompta à subfracção de uma
letra
principal,
como
o A,
ora
docil e
obediente
à
falta
de uma particula
importante
do estylo,
como
o
Verbo.
Entretanto,
sempre
bella e
sempre
magestosa.
Quer
na
prosa,
como
nos
ensinamentos
de Castilho e Herculano,
quer
no
verso
dôce
ou
candente
de
Guerra
Junqueiro
ou
Castro Alves.
Que
de mysterios na
sua
origem
e
que
de
belezas
na
sua
formação
!
Que
de
encantos
na
sua
existencia e
quanto
de
importante
e
transcendente
nas
suas
ligações
com
as outras linguas do
universo
!
Que
de
carinho
e
doçura
em
muitas de
suas
expressões,
e
que
de
propriedade,
de
força,
de symbolismo,
em
um
numero
sem
conta
de
seus
termos
!
Dahi
, a
sua
grandeza,
a
sua
importancia, o
seu
valor,
até
mesmo
no
conhecimento
parcial
ou
incompleto
das
suas
profundezas, das
suas
fontes,
dos
seus
segredos
occultos quaes outras gemmas de subido
valor
ou
inexhauriveis e inestimaveis
filões
de
ouro
de
lei.
Por
isso,
ao
trabalhador
paciente
e infatigavel no descobrimento dos
seus
mysterios, a
recompensa,
a
paga,
o
lucro
certo
em
thesouros inexgotaveis.
E
bem
assim
o
prazer,
a gloria do
conhecimento
e
trato
com
esse
idioma
commum a
dois
povos,
irmãos
em
raça,
irmãos
em
origem,
quer
no
passado
repleto
de veneras e
honrarias,
quer
no
presente
todo
cheio
de
esperanças
em
um
futuro
ainda
melhor
e
mais
explendoroso.
Para
quem
o convivio intimo e discerimonio
com
essa
soberana
tão
altiva
de
sua
linhagem
mais
que
nobre,
tão
imponente
nos
seus
foros
de
fidalga
cortezã ?
Para
bem
poucos,
em
relação
ao numero
extraordinário
de
seus
vassallos.
A
uns,
como
Camões,
Frei
Luis de Souza, João de
Deus,
Vieira,
Latino
Coelho,
Filinto, Bernardes, Eça de Queiroz e
tantos
outros,
por
indole,
inclinação,
intuição,
gosto,
prazer,
necessidade,
a
exploração
minuciosa,
methodica e circumstanciada da
formosura
de
seus
arcanos,
do
não
apparente de
seus
opulentos
escrinios. A
outros,
por
desejo
imitativo, tendencia ao
estudo,
ou
como
eu,
por
divertimento
oupassatempo.
Todos,
porem,
grandes
e
pequenos,
philologos
ou
não,
sob
o
poderio
dessa magestade
irradiante,
util e
proveitosa,
immarcessivel e bemfazeja
como
a
luz
do
sol.
Della
mil
proveitos,
della
mil
ensinamentos.
Sem
ella,
para
nós,
povos
latinos,
a ignorancia de
deslumbrantes
riquezas,
no conchego, na
intimidade
dos
grandes
mestres,
desde
os seculos
remotos
até
aos
nossos
dias.
Ali,
Luiz Camões,
poeta,
guerreiro
e
mendigo,
eterno
consultor
das analyses, super constructor da phrase tersa, alti eloquente
cantor
dos
feitos
gloriosos
das
gentes
de Portugal,
nos
immortaes "Luziadas".
E,
porque
não
Bocage,
tão
grande
no
seu
estylo
limpo
e nitido,
quão
livre
soberano,
altivo
e
independente,
verdadeiro
e consiso na
linguagem
?
No
manuseio
dos
seus
livros,
a
verdade
do
seu
quilate,
a
expressão
sincera
do estylista
como
classico, e do classico
como
escriptor.
Depois, Alexandre Herculano, nas fontes abundantes de suas lições na
nossa lingua; já nas maximas philosophicas de um profundo ensino ao
povo, já entre o mais, no transumpto fiel de uma paixão humana no
peito de um sacerdote, fóra da vida real, mas, debaixo do grilhão
dos olhos de Hermengarda, imagem do sacrifício do orgulho e
preconceito de uma raça. Batalhador audaz e destemido, corajoso e
invencivel, tanto de homem quanto da féra, em "Eurico" o amor
inextinguivel, e neste livro, em lanço por lanço, o manancial
infindavel de uma literatura sadia e confortavel, pura e bôa,
agradável e escorreita.
E o
grande Camillo Castello Branco ? Em suas obras, o amor e as
convenções sociaes sempre em lucta sem treguas e sem quartel. Em sua
penna, o gladio vingador, a punição constante ao orgulho, sem visos
de razão. Em seus assumptos, um grande bem às almas, um enorme
prazer aos corações, uma nenia à paixão terrena e infeliz, uma
benção, em summa, à pureza e à sublimidade dos mais serios e mais
caros sentimentos affectivos.
Ao
mesmo passo, o estudo profundo da nossa lingua, o ensino a todos
nós, por meio das suas bellezas, o encantamento de um estylo todo
delle, e, por isso mesmo, ao alcance de poucos e longe, da imitação
de outrem.
Nos
nossos dias, ainda lá no velho Portugal, "sob a nudez crua da
verdade o manto diaphano da phantazia" de Eça de Queiroz. o imenso e
incomparavel escriptor contemporaneo; commentador exacto dos usos e
costumes da gente de sua terra, ao par de uma linguagem tao incisiva
quão eloquente, tão mordaz quão penetrante, tão expressiva quão
forte, e tão em harmonia com os sentimentos desses de lá e tambem de
nós outros, seus irmãos por tantos laços. Nos seus livros, fieis
espelhos do seu tempo, o caracter de um povo superior e o espirito
brilhante de um literato immortal. Nas suas obras, a lição, a
critica sensata e ferina, a postergação ao vício, o aniquilamento do
futil, do hypocryta, na folhagem de falsa competencia ou na veste da
honestidade bastarda, à luz diamantina do verdadeiro e impassivel
julgamento dos homens, como elle, superiores no criterio e
formidaveis na razão.
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